Relacionamento Abusivo: Por que elas ficam? 5 Verdades sob a Psicanálise
- Daniela Branco

- 5 de mai.
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A violência doméstica configura-se como uma chaga aberta que sangra diariamente no Brasil, apresentando números que ultrapassam a frieza das estatísticas para revelar um cenário estarrecedor, onde uma mulher é espancada a cada dois minutos em nosso país. Em cerca de 80% desses casos, o horror não provém de um desconhecido em um beco escuro, mas sim daquele que deveria oferecer refúgio e segurança, manifestando-se na figura do parceiro íntimo ou do ex-companheiro.
Diante dessa tragédia, a sociedade costuma reagir com um questionamento inquisidor e excessivamente simplista sobre os motivos pelos quais ela não vai embora. Essa indagação ignora a profundidade do abalo narcísico sofrido pela vítima e tenta reduzir a paralisia provocada pelo trauma a uma escolha voluntária ou, de forma ainda mais perversa, a uma suposta natureza feminina. Como psicanalista, convido você a abandonar o senso comum para mergulhar em uma análise clínica que descontroói esses estigmas, revelando as engrenagens psíquicas e sociais que mantêm o ciclo da dor em um relacionamento abusivo.
1. O Mito do Masoquismo Feminino: Não é Natureza, é Construção Social
Por muito tempo, a teoria psicanalítica foi utilizada de forma rasa e descontextualizada para sugerir que as mulheres possuiriam uma inclinação biológica ao sofrimento, o que a literatura antiga chamou de masoquismo feminino. É necessário resgatar a verdade clínica e lembrar que o próprio Sigmund Freud observou essa posição masoquista também em homens, o que demonstra que não se trata de um traço biológico do sexo feminino, mas sim de uma posição subjetiva de passividade construída ao longo da vida.
O que a cultura frequentemente convencionou chamar de essência feminina constitui, na realidade, o resultado de séculos de supressão da agressividade imposta socialmente às mulheres desde a mais tenra infância. Utilizar o conceito de masoquismo na contemporaneidade para tentar explicar a permanência em um contexto de violência doméstica serve apenas para culpabilizar a vítima e silenciar a estrutura patriarcal que moldou as subjetividades e os papéis de gênero em nossa sociedade.
2. A Armadilha do Trabalho: A Sobrecarga Mental que Impede a Fuga
Muitos analistas de comportamento acreditam que a independência financeira seria a chave mestra e definitiva para a conquista da liberdade. Contudo, a experiência na clínica psicanalítica nos mostra que o trabalho reprodutivo e de cuidado funciona como uma barreira invisível e altamente paralisante. Esse labor silencioso é historicamente mistificado como uma vocação natural do feminino, fazendo com que muitas mulheres se sintam exaustas e profundamente culpadas em suas rotinas, em vez de se perceberem em uma situação de exploração.
Mesmo quando exercem atividades remuneradas fora do lar, a mulher contemporânea frequentemente carrega uma jornada tripla que resulta em um severo esgotamento, drenando a energia psíquica vital que seria necessária para planejar uma saída segura. Essa sobrecarga ocorre de forma contínua em três frentes distintas, iniciando pelo trabalho remunerado formal ou autônomo, passando pela responsabilidade solitária e compulsória pelos afazeres domésticos, e culminando no zelo integral por filhos, idosos ou enfermos, fatores que muitas vezes exigem o sacrifício de qualquer progresso na carreira pessoal.
3. Rede de Apoio: O Fator Decisivo entre a Vida e o Luto
O rompimento definitivo do ciclo de violência psicológica e física raramente se estabelece como um ato solitário, de modo que, nas narrativas de superação, o suporte familiar sólido e acolhedor aparece como o verdadeiro divisor de águas. Por outro lado, a permanência no vínculo destrutivo é deliberadamente alimentada por uma estratégia clássica do agressor, que consiste no isolamento progressivo da vítima.
Sob o pretexto de um ciúme romântico ou de uma falsa necessidade de proteção, o parceiro afasta a mulher de suas amigas, colegas e familiares, impedindo que ela compartilhe a sua dor e perceba a real gravidade da situação que está vivenciando. Sem laços sociais consistentes, a mulher perde suas referências de realidade, encontrando-se desamparada perante um sistema judicial que nem sempre acolhe as demandas com a rapidez e a sensibilidade necessárias para evitar o pior desfecho.
4. Casar-se com o Ideal: O Luto ao Deixar um Relacionamento Abusivo
Existe um fenômeno clínico no qual muitas mulheres acabam, inconscientemente, por se casar com o próprio casamento. Isso significa que elas permanecem vinculadas à relação não necessariamente pelo homem real que as agride de forma recorrente, mas sim pela imagem idealizada de família, fidelidade e companheirismo que projetaram e esperam alcançar no futuro.
Abandonar um relacionamento abusivo exige a elaboração de um processo de luto extremamente complexo e doloroso, pois não se trata apenas de chorar a perda do parceiro, mas sim de vivenciar o luto pelo Ideal do Eu, que representa a morte da imagem da mulher abnegada que mantém a família unida a qualquer custo. Sair dessa dinâmica significa confrontar o suposto fracasso de um projeto de vida que a cultura tradicional ensinou ser a principal fonte de realização e valorização do universo feminino.
5. A Máscara do Cuidado: O Véu da Violência Psicológica
A violência psicológica e patrimonial manifesta-se de forma sutil e extremamente difícil de ser detectada em seu início, justamente porque é vendida sob a roupagem do zelo e do afeto. O controle exercido pelo agressor costuma se apresentar de maneira sedutora, por meio de frases que se propõem a poupar a mulher de preocupações ou a resolver suas finanças para que ela não precise se cansar na rotina.
Essa falsa proteção constitui o primeiro passo para o estabelecimento de uma dominação psicológica total, fazendo com que muitas mulheres vivam anos sob esse véu antes de perceberem que o cuidado inicial se transformou em um sufocamento absoluto. Quando ocorre o despertar subjetivo, o agressor frequentemente já detém o domínio completo sobre a rotina da parceira, sobre os seus bens financeiros e, principalmente, sobre a sua própria percepção de competência e autonomia.
O Corpo que Fala: A Paralisia do Trauma
Quando a voz é silenciada pelas circunstâncias e a mulher não encontra eco ou validação no sistema judicial ou social, o trauma tende a transbordar para a dimensão corporal. Casos graves de violência e perseguição mostram que o sofrimento psíquico pode atingir um nível de desamparo tão profundo que o sujeito perde temporariamente a capacidade de simbolizar a dor através das palavras, fazendo com que o corpo responda por meio de paralisias psicossomáticas ou dores crônicas incapacitantes.
Na abordagem psicanálica, compreendemos esse estado como um desamparo discursivo, onde o sujeito perde o seu lugar de fala e de reconhecimento no laço social. Essa angústia profunda evoca o sentimento do estranho e do desolador, indicando que o trauma não se resume a uma memória ruim do passado, mas sim a um abalo narcísico estrutural que paralisa as funções corporais e desintegra temporariamente a identidade da mulher.
Conclusão: Desalienação e o Protagonismo do Desejo
Para que seja possível romper com as amarras da violência doméstica e psicológica, a experiência clínica nos mostra que não basta o simples desejo voluntário de sair, sendo fundamental atravessar um processo de desalienação. O espaço da escuta clínica e o fortalecimento das redes de apoio devem se concentrar em auxiliar a mulher a se distanciar criticamente dos papéis e das posições de servidão herdados da cena familiar sexista.
Faz-se necessário subverter os signos sociais historicamente impostos ao feminino, abrindo caminhos para que cada mulher possa, gradativamente, resgatar a sua própria voz e assumir o protagonismo de suas escolhas. Somente ao reconhecer que a sua história individual e o seu sofrimento estão entrelaçados a uma estrutura coletiva, torna-se possível reconstruir uma narrativa de vida sustentada pelo próprio desejo, inteiramente fora do campo da dor.


