Abordagem Psicanalítica na Menopausa e a Importância da Psicoterapia no Climatério

A menopausa, definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a cessação permanente dos ciclos menstruais, transcende a dimensão biológica para consolidar-se como um significante que exige um complexo trabalho de elaboração subjetiva. O presente artigo analisa a transição da fase reprovutiva para a não reprodutiva sob a ótica da psicanálise, articulando os conceitos de luto, narcisismo e desejo. Fundamentado nas teorias de Freud, Lacan e contribuições contemporâneas de Mucida e Ortiz, discute-se como o climatério confronta a mulher com o Real e o unheimlich (estranho). Dados epidemiológicos revelam uma prevalência de 39,8% de transtornos mentais comuns, evidenciando que a demanda por diagnóstico e intervenção para a ansiedade na menopausa (tratamento psicológico) torna-se um imperativo clínico. Através da investigação das possibilidades de elaboração da posição feminina após o término da fertilidade, conclui-se que a psicoterapia no climatério, pautada no método da livre associação, permite a simbolização das perdas e a transição do objeto a para o ideal i(a). A mediação de um terapeuta para menopausa mostra-se fundamental para transformar a inércia melancólica em abertura para uma vida desejante e produtiva, ressignificando a feminilidade para além dos ideais de fertilidade.
Palavras-chave: Menopausa. Psicanálise. Luto. Desejo. Saúde Mental.
INTRODUÇÃO
A menopausa, embora demarcada pela medicina como a falência ovariana entre os 45 e 55 anos, é, para a psicanálise, um evento que incide sobre o cerne da subjetividade. Ela não se reduz ao declínio hormonal, mas apresenta-se como um "significante" de uma ausência que convoca o sujeito a um intenso trabalho psíquico.
Dados de Galvão et al. (2007) indicam que a prevalência de transtornos mentais comuns (TMC) no climatério atinge 39,8%, com sintomas predominantes de humor depressivo e ansioso. É um período de vulnerabilidade acentuada, no qual a demanda por intervenção especializada para a ansiedade na menopausa (tratamento psicológico) surge da necessidade de ressignificar a imagem corporal e o lugar social da mulher. A síndrome climatérica confronta o sujeito com um "corpo que pede sentido" (FURTADO, 2001), exigindo que a mulher se posicione diante de transformações que tocam seu narcisismo e sua identidade.
A PERSPECTIVA CLÁSSICA: DO TRAUMA À FERIDA NARCÍSICA
Sigmund Freud (1937) compreendia a menopausa como um "reforço fisiológico da pulsão", comparável à puberdade pela intensificação da angústia. Para Freud, o aumento quantitativo da exigência pulsional, caso não encontre vias de satisfação sublimatória, pode resultar em adoecimento neurótico, evidenciando a resistência do sujeito em abandonar posições libidinais previamente estabelecidas.
Helene Deutsch (1924) expandiu essa visão ao descrever a menopausa como o encerramento da feminilidade ativa, associando a perda da capacidade reprodutiva a um declínio melancólico:
O momento da menopausa como o último grande trauma do desenvolvimento sexual feminino, caracterizando-o como uma incurável ferida narcísica na vida da mulher que envelhece. Para ela, as mudanças fisiológicas em curso nessa fase representam, assim como na puberdade, um aumento libidinal; entretanto, se, na puberdade, essa fase pode representar uma construção de outras vias de satisfação, na menopausa, só o caminho da regressão libidinal para posições de satisfação infantis seria viável. (DEUTSCH, 1924/1984).
Para Deutsch, a desvalorização da vagina e da fertilidade empurraria a mulher para uma "maternidade psíquica" ou para a masculinização como únicas defesas contra a desconsolação da velhice, visão que a psicanálise contemporânea buscou reformular.
A REELABORAÇÃO CONTEMPORÂNEA: O SUJEITO QUE NÃO ENVELHECE
A virada ética lacaniana propõe que, embora o organismo sofra o desgaste cronológico, o sujeito do inconsciente é atemporal. Mucida (2004) postula que "o sujeito não envelhece", argumentando que a menopausa é um dos nomes do "Real" — aquilo que escapa à linguagem — que surge na maturidade. O corpo torna-se um estrangeiro (unheimlich), exigindo que o sujeito trate esse real através do simbólico.
Zoldan (2006) demonstra que a extinção do ciclo reprodutivo pode inaugurar uma nova elaboração da sexualidade, dependendo das significações que cada mulher atribuiu à fertilidade ao longo de seu desenvolvimento. Através do método da livre associação, a clínica permite investigar as vias e dificuldades de tais processos psíquicos. Como afirma Furtado (2001), na contemporaneidade, o climatério exige novas formas de simbolização das marcas corporais inscritas desde as relações primitivas, transformando o organismo em um corpo que busca novos contornos de sentido além da função materna.
O LUTO COMO OPERADOR DE DESEJO NO CLIMATÉRIO
A tese de Ortiz, Cordeiro e Darriba (2023) estabelece o luto como um operador estruturante fundamental. O luto e desejo na menopausa psicanálise não são estados excludentes; ao contrário, o desejo falta justamente porque o "Ideal desmoronou" (LACAN, 1962-63). O luto é, portanto, o esforço de reestabelecimento das ligações pelas quais o desejo se prende.
Nesse processo, ocorre a passagem do objeto a (o real inassimilável que causa angústia) para o ideal i(a) (a imagem idealizada). Enquanto na melancolia o sujeito permanece alienado ao objeto a em uma relação narcísica destrutiva, o trabalho de luto permite "delimitar o buraco no simbólico". Ao se enlutar da posição de "mulher-fértil", a mulher desobstrui o caminho para que a libido, antes investida em ideais perdidos, seja reinvestida em novas trilhas desejantes e produtivas.
ANÁLISE SOCIOECONÔMICA E QUALIDADE DE VIDA
A saúde mental no climatério é indissociável de variáveis psicossociais. Galvão et al. (2007) demonstram que a prevalência de TMC e a redução da qualidade de vida (QV) são acentuadas por fatores específicos:
Fase do Climatério: Mulheres na perimenopausa apresentam escores significativamente inferiores nos domínios de dor, vitalidade e aspectos emocionais, indicando ser este o período de maior instabilidade subjetiva.
Escolaridade e Renda: Baixa escolaridade e baixa renda familiar correlacionam-se com piores indicadores de saúde mental e QV, limitando o acesso a recursos culturais e de saúde.
Atividade Ocupacional: A ausência de trabalho extradomiciliar está associada a sentimentos de desvalorização social e maior prevalência de transtornos.
Estes dados confirmam que a experiência da menopausa é multifatorial, exigindo que o suporte psicológico considere o contexto biopsicossocial da paciente.
O PAPEL DA PSICOTERAPIA E A ESCUTA PSICANALÍTICA
A clínica psicanalítica oferece o espaço necessário para que a menopausa deixe de ser um "horror do real" e torne-se palavra. A busca por um terapeuta para menopausa é um passo decisivo para transformar a "falta da falta" (angústia) na falta que causa o desejo.
Relatos de caso de Ortiz et al. (2023) ilustram como a simbolização transforma a existência:
Anita: Utilizou a escrita como uma ferramenta de simbolização fundamental, conseguindo, através da produção intelectual, delimitar o buraco no simbólico aberto pela transição biológica.
Tarsila: Aos 60 anos, descreveu a menopausa como "liberdade", onde a cessação da necessidade de "representar ideais" permitiu um novo investimento na sexualidade.
Haydéa: Encontrou nos laços de amizade e no suporte social os significantes necessários para atravessar as perdas objetais do período.
A psicoterapia no climatério atua como estratégia de saúde essencial, permitindo que a mulher transite da reprodução biológica para uma produção subjetiva autêntica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A menopausa não decreta o fim da feminilidade, mas exige sua reinvenção. Embora marque o término da fertilidade orgânica, a análise revela que este corte no ciclo vital pode inaugurar uma "não aposentadoria do desejo". A clínica psicanalítica fornece os significantes que a cultura muitas vezes nega, permitindo que a mulher ressignifique sua posição e aposte em uma vida mais produtiva e ativa. O trabalho analítico, ao promover a elaboração do luto, faculta à mulher no climatério a possibilidade de se haver com o próprio desejo de forma soberana.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DEUTSCH, H. The menopause (1924). International Journal of Psychoanalysis, v. 65, p. 55-62, 1984.
FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 23.
FURTADO, Ana Maria. Um corpo que pede sentido: um estudo psicanalítico sobre mulheres na menopausa. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 4, n. 3, p. 27-37, 2001.
GALVÃO, Lílian Lira Lisboa Fagundes et al. Prevalência de transtornos mentais comuns e avaliação da qualidade de vida no climatério. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 53, n. 5, p. 414-420, 2007.
LACAN, J. O seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
MUCIDA, A. O sujeito não envelhece: psicanálise e velhice. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
ORTIZ, Natália Delatim; CORDEIRO, Silvia Nogueira; DARRIBA, Vinicius Anciães. Luto e desejo na menopausa: contribuições psicanalíticas. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 26, e220637, 2023.
ZOLDAN, Vera Aparecida de Carvalho. A subjetividade feminina na menopausa: uma visão psicanalítica. Tese (Doutorado em Ciências Médicas) – Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006. Orientador: Mario Eduardo Costa Pereira. Coorientador: Aarão Mendes Pinto Neto.



